Tradução portuguesa do original inglês. Lê o texto original em inglês →
A primeira coisa que gostaria de fazer é chamar a vossa atenção para o título desta palestra: «A história vegana». Chamei-lhe assim porque queria sublinhar o modo como vou tentar abordar o tema. O que espero fazer é justamente o que o título sugere: contar uma história; a história do que é o veganismo, do que se propõe alcançar e por que se propõe alcançar o que se propõe.
No decurso da história apresentar-vos-ei certos factos e certas considerações, mas não tentarei — pelo menos, não conscientemente — nem converter ninguém nem conduzir propaganda alguma.
Caso haja entre vós quem sinta que esta é talvez uma abordagem um tanto desanimada, gostaria de explicar que, a meu ver, é a abordagem correta.
Pois, embora considere que a difusão da informação, o livre fluxo da informação, é vital para o crescimento das ideias novas, não considero parte alguma do meu dever tentar ser deliberadamente persuasivo. Creio que provavelmente concordareis comigo em que um homem deve decidir o seu modo de vida como fruto de uma convicção interior, e não como resultado de uma pressão persuasiva exterior.
Com este preâmbulo, comecemos a história vegana. E, ao fazê-lo, temos de pôr o primeiro em primeiro lugar; isto é, temos de saber do que estamos a falar. Felizmente, a palavra «veganismo» tem um significado preciso e simples. Significa: a doutrina de que o homem deve viver sem explorar os animais. Como a questão da definição é tão claramente importante, vou pedir-vos que tenhais a bondade de a reter na memória, de modo que, quando empregarmos a palavra «veganismo», todos pensemos na mesma coisa. O veganismo é, pois, a doutrina de que o homem deve viver sem explorar os animais.
Esta definição está escrita, com essas palavras exatas, na constituição da Vegan Society, de sorte que ninguém ingressa na Sociedade, seja como membro de pleno direito, seja como associado, sem saber exatamente o que apoia.
Importa reparar que um dos resultados desta definição é que faz do veganismo um princípio. É, decerto, um princípio do qual certas práticas decorrem naturalmente, mas é em si mesmo um princípio, e não um conjunto de práticas.
Outro ponto que convém reparar é que este princípio, esta doutrina, se ocupa de uma só questão. Uma questão grande, é certo, mas claramente definida: a questão da devida relação entre o homem e os animais.
O que diz, com efeito, é isto: diz que a relação geralmente aceite pelo mundo em geral é uma relação muito imperfeita. Diz, com efeito, que não poremos fim aos muitos agravos infligidos aos animais, nem poremos fim ao dano que daí resulta para a alma do homem, até que alteremos essa relação.
É necessário, por conseguinte, examinar a relação atual entre o homem e os animais e perguntar o que há de errado nela.
O que há de errado, segundo o veganismo, pode resumir-se numa só palavra: exploração.
Se olharmos com clareza e simplicidade para esta relação, podemos ver que ela está quase inteiramente — não de todo, mas quase inteiramente — baseada, do lado do homem, na ideia de que este tem um direito moral de usar os animais para os seus próprios fins.
De novo, se olharmos com clareza para esta questão da relação, também podemos ver que, em termos gerais, há duas maneiras pelas quais podemos considerar os animais: (1) como criaturas a explorar; (2) como criaturas a amar.
Se queremos compreender o veganismo, se queremos calibrar o seu valor, estamos obrigados a examinar ao menos brevemente estas duas amplas visões da relação entre o homem e os animais.
Primeiro, examinemos a visão maioritária, a de que os animais estão aqui para o nosso uso, e que temos um direito moral de os usar para os nossos próprios fins, desde que reduzamos o esforço e o sofrimento ao mínimo compatível com o que lhes exigimos.
Esta visão é sustentada pela maioria das pessoas de forma inteiramente automática. Por exemplo, os agricultores falam com toda a naturalidade de «criar mais toucinho», tal como você ou eu poderíamos falar de «cultivar mais couves».
De novo, a visão maioritária é que temos o direito moral de usar os animais para o trabalho. Para a visão maioritária não há qualquer questionamento fundamental do nosso direito de atrelar cavalos, bois, camelos, etc., e fazê-los trabalhar segundo as nossas ordens e as nossas exigências.
Na prática, decerto, há variações consideráveis na maneira como os homens de facto usam os animais. Estas variações estendem-se do comparativamente inofensivo ao francamente cruel. Mas o que é verdadeiramente importante, parece-me, é reparar na direção para a qual nos leva a doutrina da exploração.
Se quiséssemos ilustrar esta direção, poderíamos citar talvez a vivissecção; ou o facto de que o trabalho no matadouro amiúde embota os sentimentos mais finos dos homens que aí trabalham.
Outro ponto que estamos obrigados a reparar é que há algumas explorações em que o sofrimento dos animais é inerente. Isto é, que se abolíssemos o sofrimento, aboliríamos automaticamente essa forma particular de exploração. Uma vez mais, a vivissecção é um exemplo evidente. Outro é a produção de leite, principalmente pela necessidade de separar o vitelinho da sua mãe.
Dificilmente se pode escapar à conclusão de que, quando o homem decidiu que tinha um direito moral de explorar os animais, abriu de forma bem inevitável a porta a uma nova forma de sofrimento fabricada pelo homem, boa parte da qual só termina numa ou noutra espécie de matadouro.
Há, contudo, ainda outro aspeto que surge desta questão da exploração, e é um aspeto que de modo algum recebe a atenção que merece. Refiro-me ao aspeto pelo qual o homem se prejudica a si mesmo.
Quando há interação entre duas ou mais entidades, os efeitos da interação não se limitam a uma só entidade, mas cada uma é de algum modo afetada. Qual é, então, o efeito sobre o homem da interação que ele criou entre si mesmo e os animais?
O efeito sobre o homem não pode diferir, quanto à sua natureza essencial, da natureza da própria interação. Essa é talvez uma maneira bastante complicada de dizer algo que foi dito com muito maior simplicidade há muito, muito tempo: conforme semeamos, colhemos.
O que é que semeamos? O que é que fazemos aos animais?
Criamo-los aos milhões para os abater como alimento.
Exploramos as suas funções sexuais para os fazer dar leite. Depois tiramos o vitelinho da sua mãe para que o leite seja nosso e não dele. Amiúde matamos em seguida o vitelinho e comemo-lo como vitela. Quando a sua mãe fica esgotada à força de uma gravidez antinatural após outra, matamo-la também a ela e comemo-la como carne de vaca.
Caçamos animais por divertimento. Vivisseccionamo-los. Castramo-los e atrelamo-los.
Que espécie de relação pode ser esta, entre cujos símbolos figuram o chicote e o freio e o arreio e a faca do matador?
Se estas são as coisas que semeamos, então estas são também as coisas que colhemos. A forma como a nossa colheita nos chega exteriormente pode ver-se em algumas das nossas doenças, em boa parte da nossa saúde imperfeita e, possivelmente, também em parte da violência entre homem e homem.
Mas a forma como a nossa colheita nos chega interiormente não pode ser outra coisa senão um freio à nossa própria evolução espiritual. Pois assim como se impede um balão de ascender enquanto está preso à terra pelo seu cabo ou pelo peso do seu lastro, assim também a alma do homem se vê retida pelas cadeias e pelo lastro que constituem as exigências da sua própria natureza inferior. Este aspeto da relação entre o homem e os animais é um que requer talvez mais reflexão do que alguns dos aspetos mais evidentes, mas creio que é um dos mais graves de todos os variados resultados de viver segundo a doutrina da exploração.
Tendemos a esquecer, por exemplo, que uma das provas mais rigorosas do carácter de um homem, e por conseguinte da sua capacidade de se elevar mais alto, é como se comporta para com aqueles sobre quem possui poder. Quando se depara com o mundo dos animais, enfrenta esta prova na sua forma mais ácida; pois não se negará que os animais não podem resistir com êxito à sua vontade.
Em vez de viver para com eles com amor e compreensão, o que seria de esperar de um coração compassivo e de uma mente esclarecida, vive para com eles como um senhor feudal, em muitos casos como um parasita, e amiúde é a causa de sofrimento considerável para eles.
Tudo isto surge porque ele começa por dar por suposto o direito moral de exploração. Aí reside o cerne de toda a questão, e aí também reside o único lugar em que podemos, se quisermos, operar uma reconciliação. Até que operemos tal reconciliação, continuaremos a colher o que semeamos. Até que aprendamos que o fruto da felicidade humana não pode crescer na árvore da exploração, tanto tempo a dor e o sofrimento que infligimos aos nossos irmãos menores retornarão como bumerangues sobre as nossas próprias cabeças.
Até aqui a primeira visão, a maioritária: a de que temos o direito de usar os animais para os nossos próprios fins.
A segunda visão, como assinalei antes, é considerar os animais como criaturas a amar.
Ora, parece-me evidente por si mesmo que, quando amamos, não exploramos. No momento do amor, não pode haver pensamento algum de explorar aquilo que amamos.
Também me parece evidente por si mesmo que o amor é livre. Ninguém pode forçar o amor; ninguém pode atá-lo com cláusulas restritivas. O amor e a liberdade andam de mãos dadas.
Se, por conseguinte, aceitamos em princípio que é melhor amar do que explorar; se, por muito que tropecemos e falhemos em diversos pontos, continuamos a crer que é melhor manter os olhos postos na meta do amor, que haveríamos, então, de fazer com os animais? Sem dúvida a resposta é a clareza mesma: libertai-os!
E é precisamente isso que o veganismo quer fazer. Quer libertar os animais; libertá-los da exploração pelo homem, tal como no século passado Lincoln, Wilberforce e os demais pioneiros procuraram libertar os escravos humanos.
O veganismo é, em essência, uma doutrina de liberdade. Procura libertar os animais da servidão ao homem, e o homem da servidão a uma crença falsa: a falsa crença de que tem o direito moral de usar os animais para os seus próprios fins.
É, decerto, uma pergunta pertinente, depois de termos decidido o que é justo em princípio, perguntar como pode alcançar-se tal liberdade. É evidente que a transição das práticas que surgem da exploração para aquelas que surgiriam do amor será uma empresa enorme. Basta pensar um momento nas imensas ramificações da exploração animal para que se torne evidente de imediato que a transição só pode chegar por etapas. Temos de dar primeiro os passos mais urgentes, e os demais gradualmente, à medida que chegarmos a eles por ordem de urgência.
Um dos primeiros passos é desenvolver alternativas àqueles produtos de origem animal que a maioria dos homens crê necessários ao seu bem-estar. Por isso, no momento presente, a ênfase do movimento vegano recai sobre a alimentação e as mercadorias. Aqui é onde podemos ver a relação entre o vegano e o vegetariano. Pois a alimentação vegana é uma que não assenta de modo algum na exploração dos animais; dito de outro modo, é vegetariana no sentido mais estrito possível, e exclui tanto os ovos e os produtos lácteos como a carne. A dieta vegetariana, neste sentido estrito, é uma das muitas práticas que decorrem do princípio vegano.
Mas, como indiquei, o veganismo é um princípio geral que, se adotado, daria lugar a muitas mudanças além das mudanças na alimentação. Daria lugar, por exemplo, à abolição da vivissecção, da caça e de todas as demais formas de explorar os animais. E embora estejamos de acordo em que na prática só pode ser adotado gradualmente, há não obstante uma coisa que pode fazer-se agora e a todo o momento: a difusão da crença de que a emancipação animal não é simplesmente uma causa digna, mas uma que não pode adiar-se indefinidamente.
Esta crença há de parecer tão revolucionária à presente geração como pareceu a emancipação dos escravos humanos a uma geração anterior. Mas, revolucionária ou não, creio que em última instância é inevitável; isto é, se é que alguma vez havemos de viver verdadeiramente em paz sobre a terra. Pois, sem dúvida, é no mínimo ilógico rogar a um Pai Celestial paz e boa vontade entre os homens e, ao mesmo tempo, travar uma guerra ímpia contra os nossos irmãos menores.
Até agora, a ideia de que temos um direito moral de explorar os animais foi aceite de forma quase universal. Mas parte do progresso ascendente do homem depende da sua capacidade de ver o falso naquilo que até agora se teve por verdadeiro. Pois quando vemos o falso como falso, então ele desprende-se de nós, e outra servidão fica para trás.
É o verdadeiro, e não o falso, que liberta. O falso não pode conduzir à liberdade, não pode conduzir ao amor.
Por esta só razão, parece-me, este jovem movimento cuja meta é libertar os animais tem os seus pés sobre um caminho verdadeiro, ainda que longo e árduo.
— Leslie J. Cross
Continua a tocar em segundo plano mesmo com o ecrã bloqueado.