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Alguém disse uma vez na rádio que não há animal mais antinatural do que uma vaca leiteira. É antinatural porque o homem transformou a vaca original em algo que a natureza nunca quis que ela fosse. Por meio de artifícios tortuosos, transformámo-la numa máquina de leite — e são esses artifícios e as suas consequências que particularmente nos interessam.
Os mamíferos produzem leite para alimentar as crias da espécie até à idade do desmame, altura em que o leite deixa de fluir. É isto o que acontece na natureza; porque não acontece com a vaca leiteira?
Empregam-se diversos métodos para frustrar o curso natural das coisas, de modo que a vaca produza muito mais leite do que produziria se a natureza seguisse o seu curso. Só isto poderia não ser censurável, desde que os métodos empregados não causassem sofrimento, não ofendessem os instintos normais e naturais, e não exigissem a matança.
Uma vaca não pode produzir leite sem primeiro ser fecundada. Isto faz-se, na sua maior parte por inseminação artificial, no momento que convém às exigências do mercado humano. Quando o vitelo nasce, é retirado à sua mãe, por vezes à nascença, e mais habitualmente alguns dias depois. Se a mãe e o vitelo fossem deixados sozinhos, então, à medida que o vitelo se aproximasse da idade do desmame, o leite da mãe começaria a diminuir e por fim o fluxo cessaria.
Mas não é isto o que precisamos. Precisamos do leite da mãe para nós próprios, no maior volume possível. Por isso, o vitelo é levado.
Os vitelos machos — a maior parte dos vitelos nascidos na cabana leiteira nacional — costumavam ser abatidos para vitela, mas hoje em dia o número dos mortos tão novos vai diminuindo, porque cada vez mais são encerrados em jaulas de engorda para criação intensiva como carne de vaca.
A separação forçada da mãe e do vitelo recém-nascido acarreta uma certa angústia para ambos, e uma vaca bramirá muitas vezes amargamente durante alguns dias e noites depois de o seu vitelo lhe ser arrebatado.
Ao ordenhar a vaca até à secura em cada ordenha, o fluxo de leite — ou o período de lactação — é prolongado por alguns meses. O volume de leite é aumentado alimentando-a com concentrados e rações especiais.
Para iniciar uma nova lactação, repete-se o procedimento; a vaca é de novo fecundada, o seu vitelo é levado, e a técnica de indução de leite é de novo posta em marcha.
No fim da sua vida útil como produtora de leite, à vaca agradece-se habitualmente os seus serviços à humanidade matando-a e vendendo o seu corpo em pedaços de carne de vaca.
Estes métodos são necessários se a produção leiteira há de ser conduzida como um empreendimento comercial — e ninguém se preocupa muito em conduzi-la de qualquer outra maneira.
Em 1961, o Daily Express publicou um artigo a favor da jaula de engorda, e o autor perguntava: «Quantas das pessoas que se opõem a este método (o de engorda) sabem que, no ano passado, 800 000 vitelos foram abatidos poucos dias depois de nascerem, em grande parte para que pudéssemos ter o leite das suas mães?» Desde então, o número dos abatidos muito novos tinha-se reduzido a metade até 1965.
A ligação entre o leite e a procura de carne de vaca foi assinalada no Daily Mail em dezembro de 1965: «…estamos a entrar numa era em que o vitelo é o objeto primário e o leite o subproduto. …A expansão da carne e do leite poderia facilmente levar a um aumento de 500 000 vacas até 1970. Produziriam aproximadamente o mesmo número de vitelos por ano, na sua maioria para carne de vaca…»
A questão moral levantada pela quinta leiteira é, portanto, esta: é correto usar os animais deste modo, como se fossem máquinas sem nervos nem sentimentos — nem sequer sentimentos maternais — apenas para que possamos ter o leite das mães e o corpo dos vitelos?
Dito de outro modo, porque afirmamos ser mais inteligentes e mais nobres do que os animais, não podemos escapar à obrigação de agir de um modo condizente com a nossa inteligência superior e a nossa maior nobreza. Este é o significado de noblesse oblige — que nos diminuímos a nós próprios quando infligimos a outros, homens ou animais, dano e sofrimento desnecessários. Infligimos sofrimento aos animais e infligimos dano a nós próprios.
As considerações éticas surgem do contexto de certos impulsos interiores e subjetivos que levam certas pessoas a concluir que a relação entre os homens e os animais tem mais significado do que à primeira vista pudesse parecer. Tais pessoas creem que os homens e os animais partilham este planeta com um propósito que é, no essencial, o mesmo. Isto é, que por um caminho distinto mas paralelo, os animais, como os homens, estão aqui com algum propósito evolutivo. Não podemos exprimir esse propósito em palavras precisas, mas há linhas orientadoras. Sabemos, por impulsos interiores, que por vezes vivemos uma vida melhor do que a que vivemos noutros momentos. É justificável e correto tomar como ponto de partida que as ações que são egoístas ou interesseiras não resultam na elevação do nível mental ou espiritual em que vivemos. Além disso, que certas espécies de ação que, precisamente por serem altruístas e compassivas, resultam sim na elevação do nosso clima mental e espiritual, e resultam sim numa vida interior mais satisfatória.
Não há nada que revele tanto o carácter de um homem como a maneira como se comporta para com aqueles sobre os quais possui poder — o campo de concentração nazi é um exemplo extremo. Se levarmos isto um passo mais além, podemos ver que sobre o mundo dos animais — por vezes chamados os nossos irmãos menores — obtivemos, pela nossa inteligência superior, um poder quase absoluto. Porque temos tanto poder sobre eles, são como um papel de tornassol mergulhado no nosso carácter. Como os tratamos há de revelar muito acerca da nossa natureza.
Em geral, agimos para com os animais tendo em mente interesses egoístas. Isto não é verdade em todo o campo, mas é-o num âmbito muito vasto. Usamo-los de modo que o produto final seja algo que queremos, sem qualquer atenção ao verdadeiro papel destas criaturas na terra. Tal pensamento não fica parado — o crescimento da pecuária industrial é um exemplo.
Por detrás de todas as formas de consideração pelos animais está o sentimento de que a relação entre os homens e os animais tem um significado genuíno para o próprio homem. Diferentes pessoas respondem a este sentimento de maneiras distintas — o vegetariano, por exemplo, responde tentando tornar o seu alimento tão humanitário quanto possível. O processo é contínuo, não há rigidez, mas há direção. Esta é a razão do surgimento dos esforços por produzir uma alternativa humanitária ao leite animal para consumo humano.
No passado, os vegetarianos aceitavam o leite animal como um alimento vegetariano legítimo simplesmente porque os factos não eram devidamente conhecidos; e porque, por isso, o leite animal parecia estar livre de matança. Mas podemos ver, uma vez examinados os factos, que o leite produzido comercialmente é tanto um produto da matança como a própria carne. Podemos ver que «Porquê matar por alimento?» abrange «Porquê matar por leite?». Podemos ver que não há duas questões separadas, uma da carne e outra do leite, mas que há uma única questão — a questão do continuum carne-leite. O surgimento de alternativas humanitárias ao leite animal está a tornar mais fácil aceitar as consequências, mas os hábitos são lentos a mudar. Muitos vegetarianos, mesmo agora, parecem estar presos ao leite tal como os fumadores estão presos aos cigarros.
A rigidez de perspetiva é um estado perigoso. A vida é um fluxo, e é a direção em que nos movemos o que verdadeiramente conta. O leite não nos apresentava outrora um problema, mas, tendo aprendido os factos, apresenta-nos de facto um problema inescapável. As consequências de o ignorar não se limitam a acrescentar ao fardo de sofrimento e morte violenta infligidos aos animais — impedem a nossa própria evolução espiritual.
— Leslie Cross